 um jovem
bem-apessoado dedilhava uma harpa.
- Sete bênçãos aos bons senhores - disse, quando se sentaram.
Uma taça vazia de vinho estava na mesa à sua frente.
- E para você também, cantor - retorquiu Catelyn. Sor
Rodrik gritou por pão, carne e cerveja num tom que queria
dizer já. O cantor, um jovem de cerca de dezoito anos, olhou
para eles com ousadia e perguntou-lhes de onde vinham, para
onde iam e que novas traziam, atirando as perguntas, rápidas
como setas, sem deixar uma pausa para as respostas. -
Deixamos Porto Real há uma quinzena - respondeu Catelyn à
pergunta que mais lhe dava segurança.
- É para onde eu vou - disse o jovem. Tal como Catelyn
suspeitara, ele estava mais interessado em contar sua própria
história do que ouvir a deles. Nada havia que os cantores
mais amassem que o som de suas vozes. - O torneio da Mão
significa senhores ricos com bolsas gordas. Da última vez,
regressei com mais prata do que conseguia transportar... ou
teria regressado, se não tivesse perdido tudo ao apostar na
vitória do Regicida.
- Os deuses franzem as sobrancelhas aos jogadores - Sor
Rodrik disse severamente. Era um homem do Norte e
comungava das ideias dos Stark acerca dos torneios.
- E com certeza a franziram para mim - disse o cantor. - Seus
deuses cruéis e o Cavaleiro das Flores deram cabo de mim
completamente.
- Decerto isto lhe serviu de lição - disse Sor Rodrik.
- Serviu. Desta vez, minhas moedas apoiarão Sor Loras.
Sor Rodrik tentou puxar as barbas que não estavam lá, mas,
antes de poder compor uma reprimenda, o criado chegou
numa correria. Pôs na frente deles fatias de pão e as encheu
com bocados de carne tirada de um espeto pingando molho
quente. Outro espeto continha minúsculas cebolas, pimentões
de fogo e gordos cogumelos. Sor Rodrik preparou-se para se
refestelar, enquanto o rapaz corria de volta para lhes trazer
cerveja.
- Meu nome é Marillion - disse o cantor, fazendo soar uma
corda de sua harpa. - Com certeza já me ouviram tocar em
algum lugar...
Seus modos fizeram Catelyn sorrir. Poucos cantores errantes
se aventuravam tão para norte como Winterfell, mas
conhecera esse tipo de homem durante a infância passada em
Correrrio.
- Receio que não - ela respondeu.
Ele arrancou um lamentoso acorde da harpa.
- A perda é sua - ele retrucou. - Quem foi o melhor cantor que
já ouviu?
- Alia de Bravos - respondeu Sor Rodrik de imediato.
- Ah, eu sou muito melhor que esse pau velho - disse
Marillion. - Se tiver prata para uma canção, de bom grado a
mostrarei.
- Talvez eu tenha um cobre ou dois, mas mais depressa os
atiraria a um poço do que pagaria pelos seus uivos -
resmungou Sor Rodrik.
Sua opinião sobre cantores era bem conhecida; a música era
uma coisa adorável para mulheres, mas não era capaz de
compreender por que motivo um rapaz saudável ocuparia as
mãos com uma harpa quando poderia empunhar uma espada.
- Seu avô tem uma natureza amarga - disse Marillion para
Catelyn. - Pretendia honrados. Uma homenagem à sua
beleza. A bem da verdade, fui feito para cantar para reis e
grandes senhores.
- Ah, consigo ver isso - disse Catelyn. - Ouvi dizer que Lorde
Tully é amigo das canções. Sem dúvida que já esteve em
Correrrio.
- Cem vezes - disse o jovem com desenvoltura. - Mantêm um
aposento à minha espera, e o jovem senhor é como um irmão.
Catelyn sorriu, perguntando a si mesma o que Edmure
pensaria daquilo. Outro cantor dormira uma vez com uma
moça que seu irmão gostava; desde então passara a odiar a
raça.
- E Winterfell? - perguntou-lhe. - Já viajou para o norte?
- E por que haveria de ir para o norte? - perguntou Marillion.
- Lá em cima são só neves e peles de urso, e a única música
que os Stark conhecem é o uivar dos lobos - de um modo lon-
gínquo, ela percebeu a porta que se abria na ponta mais
distante da sala.
- Estalajadeiro - disse uma voz de criado atrás dela -, temos
cavalos que precisam de estábulo, e meu senhor de Lannister
deseja um quarto e um banho quente.
- Ah, deuses - disse Sor Rodrik antes que Catelyn o
conseguisse silenciar, seus dedos apertando-se com força em
torno de seu braço.
Masha Heddle desfazia-se em reverências e sorria seu
hediondo sorriso vermelho.
- Lamento, senhor, deveras, estamos cheios, todos os quartos.
Eram quatro, Catelyn viu. Um velho trajando o negro da
Patrulha da Noite, dois criados... e ele, ali em pé, pequeno e
descarado como a vida.
- Meus homens dormirão no seu estábulo, e quanto a mim,
bem, não preciso propriamente de um quarto grande, como
pode ver bem - mostrou um sorriso zombeteiro. - Desde que o
fogo aqueça e a palha esteja razoavelmente livre de pulgas,
sou um homem feliz.
Masha Heddle estava fora de si.
- Senhor, não há nada, é o torneio, não há nada a fazer, ah...
Tyrion Lannister tirou uma moeda da bolsa, atirou-a por
cima da cabeça, apanhou-a, e a atirou de novo. Mesmo na
outra ponta da sala, onde Catelyn se encontrava, o cintilar do
ouro era inconfundível.
Um cavaleiro livre com um desbotado manto azul pôs-se em
pé:
- É bem-vindo ao meu quarto, senhor.
- Ora, aqu